Wall Street: Poder e Cobiça

"The point is, ladies and gentleman, that greed, for lack of a better word, is good."
Sem mesmo ter que adicionar o dispensável subtítulo com as instigantes palavras “poder e cobiça”, Wall Street já seria um filme completamente rentável, apenas com seu título original. O que acontece nos bastidores de Wall Street desperta certa curiosidade que apenas adiciona ao fascínio contido neste filme de Oliver Stone, que por sua vez adora um desafio. Seja nas cinebiografias de presidentes polêmicos ou de certa banda de rock, no retrato da guerra, do futebol americano ou mesmo de fatos marcantes como 11 de Setembro e o assassinato de John F. Kennedy, Stone é um dos mais ambiciosos cineastas ainda em atividade – ainda que seus filmes atuais não despertem a comoção ou satisfação de antigamente. Então, para um diretor que encarou desafios tão soberbos, retratar o que acontece por trás do distrito financeiro da maior potência do mundo é apenas mais um passeio no parque. Isso explicaria a segurança com a qual Stone surge na condução nervosa de Wall Street: Poder e Cobiça, uma pequena pérola dos anos 80.

No filme, encontramos duas pessoas em dois extremos com relação a Wall Street. Bud Fox (Charlie Sheen) é um corretor de ações que vive (e praticamente paga) para trabalhar, com sonhos de um dia conhecer a pessoa certa e chegar ao clube seleto dos figurões – onde se encontra, por sua vez, Gordon Gekko (Michael Douglas). Um monstro habilidoso, Gekko é um mestre na arte de fazer dinheiro. Depois de muita insistência, Fox consegue uma breve reunião com Gekko, lhe instigando. Aos poucos, Fox começa a comprometer-se a realizar ações que, ao produzir mais dinheiro para Gekko, automaticamente o deixa cada vez mais próximo do sonho americano que busca consolidar para si próprio. Logo, porém, moralidade entra em cena, e Fox fica encurralado em um mundo sem escrúpulos.

Poderia ter sido clichê todo essa jornada pela qual Bud Fox passa e, de fato, não existem muitas surpresas ao desfecho. O que enriquece o trabalho aqui, porém, é a imersão em personagens e detalhes de Oliver Stone, que ainda co-escreveu o roteiro em parceria com Stanley Weiser (W.). Há uma condução interessantíssima para com a relação de Bud com seu pai –  interpretado pelo pai verdadeiro de Charlie, Martin Sheen – em contraponto ao relacionamento que se desenvolve com Gekko, que vai se firmando como uma figura paternal igualmente impressiva para com as decisões de Bud. Para almejar a devida catarse, é óbvio que o roteiro precisou ser esquemático o bastante para chegar ao ponto em que tais figuras paternas entram em confronto (o momento onde o mundo de Bud começa a ruir) – mas não esquemático em excesso para incomodar ou extrair qualquer autenticidade. O tom de realismo e visceralidade, alias, é a marca do filme.

Em belíssima colaboração com o sempre venerável Robert Richardson (Ilha do Medo), Stone arquiteta um estilo de filmagem perfeito. Despido de qualquer noção de estilo mais exagerada ou perceptível pela audiência, Stone mergulha seus diálogos muito interessantes em planos longos habilmente construídos (e sustentados com precisão pelo ótimo elenco). Assumindo uma câmera nervosa em momentos de maior tensão e, ao decorrer da metragem, retratando seus personagens de perto e com maior intimidade para frisar o rumo inquietante que a película adquire, há muita virtude ao analisar-se os detalhes excitantes que Stone aplica à sua obra. Por exemplo, há um fantástico conceito por trás do uso de “subalternos” em diversos momentos do filme, que surgem trabalhando ao fundo de cenas onde os “grandes” produzem seu dinheiro em abundância, com o qual compram suas casas de praia e carros conversíveis.

São nos detalhes que Wall Street: Poder e Cobiça torna-se realmente memorável, e isto inclui os diálogos fortes – e a maioria entoados, claro, por Gordon Gekko. Sua fala, “Cobiça, pela falta de uma palavra melhor, é bom”, já é clássica. Gekko foi inspirado em figura de Wall Street chamada Ivan Boesky que proferiu frase semelhante antes de ter que pagar US$100 milhões como penalidade pelo mesmo crime cometido por Gekko aqui. A ferocidade deste personagem é composta pelos diálogos, mas ganha vida própria mesmo por causa da atuação consagrada de Michael Douglas, em um dos melhores momentos de sua carreira. Alternando as diversas facetas de Gekko com bastante eficácia, Douglas é a marca registrada deste longa-metragem – e nem poderia deixar de ser, realmente impressionando.

Charlie Sheen, talvez por estar contracenando com o próprio pai, nunca esteve (e nem estaria futuramente) melhor. Em atuação formidável, surpreende em sequência mais para o desfecho, ao passo que Martin Sheen encara seu papel com devida intensidade. O calcanhar de Aquiles do elenco fica por conta da inconstante Daryl Hannah e de sua personagem igualmente descartável. Apesar de excelente, Wall Street: Poder e Cobiça não é, afinal, um filme perfeito. Ainda com fortes virtudes e um desfecho particularmente corajoso pela nota em aberto, o longa-metragem é mais um estudo social sobre as manifestações particulares do capitalismo sob o sonho americano do que, propriamente dito, sobre personagens em si. Falta, por exemplo, maiores nuances para ecoar a humanidade de Gordon Gekko, por mais que este não possa deixar transparecer qualquer vestígio desta para os seus subalternos. Seja como for, eis aqui um forte trabalho de Oliver Stone que merece ser relembrado agora que sua sequência chega aos cinemas.


______________________________________________________________________________________

Wall Street (1987)
Direção: 
Oliver Stone 
Roteiro: 
Stanley Weiser, Oliver Stone 
Elenco: 
Charlie Sheen, Michael Douglas, Martin Sheen, Daryl Hannah, Hal Holbrook, Chuck Pfeiffer, John C. McGinley, Sylvia Miles 
(Drama, 126 minutos)

12 comentários:

Leandro disse...

Ainda não assisti nem o primeiro,estou a conferir esse e aí sim eu irei assistir o segundo (dã) ... ADOREI O NOVO BLOG,e já me ganhou só as três imagens de lá de cima Beleza Americana,As Horas e Direito de Amar são GENIAIS,BTW.
Boa Sorte com o novo blog xD

Mateus Selle Denardin disse...

Também gosto do filme, e seu texto expõe e analisa bem os aspectos temáticos e narrativos da obra. Realmente é consenso que Daryl Hannah está decepcionante (para dizer o mínimo) em WALL STREET. Até o próprio diretor, nos extras do DVD, disse que ela estava deslocada na produção.

Robson Saldanha disse...

Ótimo o novo espaço.

Então, vi esse pra conferir o segundo e achei o primeiro bem melhor, mais inteligente e mais frio.

Wally disse...

Leandro: Este que comentei é o primeiro mesmo, do qual conferi pela primeira vez e gostei muito. Obrigado, adoro estes filmes também!

Mateus: Muito obrigado, gosto bastante do filme e Hannah está mesmo deslocada - parece que teve um relacionamento conflituoso com Stone ao longo das filmagens.

Robson: Obrigado! Ainda não vi o segundo, mas adorei este.

Mayara Bastos disse...

Primeiro, adorei o seu novo espaço, muito charmoso!

Segundo, este filme está na lista de prioridades, um pecado não ter visto ele ainda, rsrs. À conferir.

Beijos e sucesso com o novo blog! ;)

Dr Johnny Strangelove disse...

Agora sim ...
E o pior é que nem vi esse e o segundo já foi pro saco por aqui ... FAIL

E welcome bequi to brogispoti ... eehehehe
Abraços manolo!

bruno knott disse...

Belo novo blog!!!

Quanto ao Wall Street, ainda não vi... e concordo com tudo o que você falou sobre o Oliver Stone.

Queria ver este antes de ver o que está passando no cinema... só falta tempo! hehe

abraços.

Wally disse...

Mayara: Muito obrigado! E o filme é ótimo, vale muito a pena.

Johnny: Gostei muito deste primeiro.

Bruno: Obrigado, e o filme é ótimo, quero ver a sequência.

alan raspante. disse...

Amém! voltou! hehehe
Está de parabéns teu novo blog, ótimo visual e texto impecável como sempre. Ainda não vi este filme, pq não vi o primeiro. Pretendo ver os dois filmes em breve!
Tá gostando do BLOGSPOT ???
Abs. =)

Wally disse...

Alan: Valeu, de verdade! Gosto de algumas coisas do blogspot, mas estou me acostumando com outras.

Otavio disse...

Acho um bom filme, que ganha muito com a atuação de Michael Douglas. Mas "Wall Street: Poder e Cobiça" é "Cidadão Kane" perto de "Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme".

Abs!

Wally disse...

Otavio: O que mais gostei no filme foi a fotografia, mas Douglas está mesmo sensacional. Ainda não vi a sequência, não estou ansioso.

Postar um comentário