O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus

"You can't stop a story being told."

Cineasta que pode ser considerado um auteur, Terry Gilliam partiu da trupe de Monty Python para realizar algumas pérolas de ficção-científica e fantasia nos anos 80 e 90, de Os Bandidos do Tempo a Os 12 Macacos. E, mesmo quando não realizava filmes de gênero, certamente flertava com as sensações provocadas pela imaginação ilimitada – como em Medo e Delírio. Após este filme, porém, ficou um longo período longe das câmeras, apenas retomando o posto em 2005 com o divertido Os Irmãos Grimm. Em seguida, realizaria o duramente criticado Contraponto. Todos filmes de temáticas fantásticas. Com O Mundo Imaginário do Doutor Paranassus, ele não está em terreno novo, portanto. É, porém, o primeiro filme no qual trabalhou diretamente com desenhos de produção desde As Aventuras do Barão de Münchausen – com o qual este filme divide algumas semelhanças temáticas. O que começou como um surto de criatividade de Gilliam logo se transformou em um pesadelo com a morte precoce de seu protagonista, Heath ledger, no meio das filmagens.

Há um diálogo no filme do qual dita: “você não pode interromper uma história de ser contada”. E é, de fato, o que Gilliam levou ao pé da letra ao encarar o desafio de ter que remodelar seu filme para que este convivesse com a lamentável perda de não só seu protagonista, como também um forte talento. No filme, Ledger interpreta Tony, um jovem que é encontrado pela trupe do Imaginário enforcado pelos russos em uma ponte. O Imaginário, por sua vez, é composto pelo Doutor Parnassus (Christopher Plummer), sua filha Valentina (Lily Cole) e o companheiro Anton (Andrew Garfield). Os três armam apresentações país afora promovendo uma imersão na mente de Parnassus que, por sua vez, o transporta aos seus mais loucos sonhos.

É interessante abordar o enredo de O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, acompanhar as engrenagens de sua trama e tentar decifrar a forma com a qual Gilliam trapaceou para que a história funcionasse mesmo sem a presença de Ledger. Curioso, alias, que não dá para perceber verdadeiros furos ou inconsistências em se tratando do personagem e suas motivações. Seu destino é apropriadamente selado e não restam pontas soltas. Os atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell surgem apenas como representações de Tony em projeções diferentes do Imaginário. Apesar dessa bela desenvoltura, porém, não tem como fugir da noção de que, talvez por natureza, trata-se de um filme no mínimo irregular. Tony pode fazer sentido, mas nem tudo que está ocorrendo ao seu redor mantém-se exatamente plausível – mesmo para uma fantasia extravagante.

O verdadeiro valor do filme encontra-se não na narrativa e nas ocorrências factuais que pontuam a metragem, mas sim no retrato de Gilliam da fantasia e, mais especial, no tom de fábula moral contemplado pelo roteiro. O filme oscila cenas no mundo real com as sequências fantásticas dentro do Imaginário e, quando Gilliam realmente decide mergulhar afundo nas temáticas que sobrevoam seu conto, o resultado é sempre virtuoso. O destaque acaba ficando por conta dos flashbacks sobre a vida passada de Parnassus e seu contato com o diabo, Sr. Nick (Tom Waits). Neste aspecto, o filme é um clássico exemplar do gênero, usando da fantasia para brincar com emoções humanas e mitologia fascinante. É excitante, por sua vez, quando Gilliam dá vida ao Imaginário e as jornadas que ocorrem ali dentro, em sequências pontuadas não só pela estética formidável, mas pela natureza conceitual do espectro ao oferecer uma espécie de julgamento contra seu visitante.

Contando com sensacional direção de arte e fotografia excepcional principalmente ao contrastar a magia do Imaginário com os tons provincianos do mundo real, a parte técnica do longa-metragem não deixa nada a desejar ao que Gilliam já realizou em filmes superiores. Juntamente com o figurino indicado ao Oscar, oferece um entusiasmo estético e sensorial que a história em si da película falha ao produzir. Apesar dos vários pontos de interesse e virtude, seja pela narrativa inconsequente ou detalhes banais o filme nunca atinge o status almejado. A impressão que fica é que, com as mudanças obrigatórias no enredo, Gilliam pode ter optado por fazer outro filme ainda na metade da confecção de um, o que deixou elementos confusos e sensações deslocadas, resultando em uma história que falta a congruência necessária para impressionar como seus visuais.

Além da participação extremamente agradável de Ledger, que insere um tom de humor bem-vindo à metragem, o elenco merece elogios pelas atuações eficientes dos jovens Lily Cole e Andrew Garfield. O veterano Christopher Plummer, por outro lado, se limita a personificar certo tipo de papel requerido sobre seu personagem. Faz bem, mas é Tom Waits com o diabo que deixa a impressão mais forte. O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus é, alias, uma inconstâncias de impressões. Fatores lúdicos se misturam com temas humanos em conversão nem sempre fantástica mas que, pelo tempo de uma duração, irá oferecer o escapismo necessário para lhe levar ao seu próprio Imaginário. O interesse não te segue para fora, porém, e o momento vai se perdendo no cinismo de sentimentos. O novo filme de Terry Gilliam, por mais que tente, não vai sobreviver aos cínicos.
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The Imaginarium of Doctor Parnassus (2009)
Direção: 
Terry Gilliam
Roteiro: 
Terry Gilliam, Charles McKeown
Elenco: Christopher Plummer, Lily Cole, Heath Ledger, Andrew Garfield, Verne Troyer, Tom Waits, Johnny Depp, Colin Farrell, Jude Law, Peter Stormare

(Fantasia, 123 minutos)

12 comentários:

alan raspante. disse...

ahhh, cara, definitivamente, tenho que ver este filme em breve ;)

renatocinema disse...

Quando eu fui assistir esse filme pensei que todos falavam dele apenas pela tragéida envolvendo Heath Ledger....engano puro. A história é muito boa e emocionante. Como quase sempre Terry Gilliam (Brazil, o Filme) nos apresenta uma ótima trama dentro de uma viagem maluca pela mente humana. Imperdível.

annastesia disse...

Gente, não importa o que aconteça, falem o que quiserem, mas eu adoro Terry Gilliam. Sendo uma Pythonmaníaca ajuda bastante, eu sei. Com ou sem altos e baixos, adoro sua originalidade e sua loucura.

Pedro Tavares disse...

O que aconteceu com teu outro blog, Wally?

Wally disse...

Alan: Veja sim, vale a pena!

Renato: Não achei "imperdível", mas gostei do filme. Acho Gilliam um maravilhoso sonhador.

Annastesia: Admiro muito tudo o que vi de Gilliam até então. E o filme, mesmo deixando a desejar, é uma boa pedida - especialmente para fãs.

kamila disse...

Confesso que não tenho muita curiosidade para assistir a este filme! Acho os trabalhos do Terry Gilliam muito bizarros...

Cristiano Contreiras disse...

Olha só, não achei muito "empolgado" você ao falar do filme, rs. Achei você meio frio, rs. Polido, sei lá..foi o que transpareceu. Acho que o filme não te tocou bem...

e, pelo que ando vendo, todo mundo não gostou dele...só vejo comentários mais negativos.

Gosto do "Os doze macacos" de Terry Gilliam.

abraço

Otavio disse...

Adoro o Terry Gilliam. Ele jamais deveria se afastar dessa visão onírica que ele coloca na tela. Ainda não vi o filme. Estou doido pra ver. E como não sou cínico, acho que vou adorar ;-)

Abs!

Matheus disse...

Eu aceito uma certa cota de loucura e coisas bizarras em filmes. "O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus", a partir de certo momento, ultrapassa esse meu limite. Portanto, não curti muito o filme...

Weiner disse...

Também nunca conferi "O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus". Cheguei a tê-lo aqui, mas demorava para conferir, até que tive de formatar o PC e acabei perdendo o arquivo. Não procurei mais por ele depois. Acho que meu inconsciente concorda com Kamila: talvez ache os filmes de Gilliam um tanto bizarros, e nem todos me chamem atenção.
Parabéns pelo novo espaço, amigo! =)

Wally disse...

Kamila: Bizarros, mas divertidos.

Cristiano: Você está certo. Não me aprofundei muito. Talvez porque o filme não supriu tal necessidade.

Otavio: Eu gostei, mas queria ter sido fascinado. Talvez ocorra com você.

Matheus: O filme realmente desanda.

Weiner: É um bom filme justa pelo misto de bizarrice. Só não é um grande filme.

Película Criativa disse...

Eu adorei o filme, mas não recomendo a todos.
Sou fã de Terry Gilliam, seus filmes sempre tem histórias fora da caixa e visual deslumbrante.

Também escrevi um post no meu blog sobre O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus. Se quiser trocar opinião, clique aqui: http://peliculacriativa.blogspot.com/2010/09/quem-e-fa-do-diretor-terry-gilliam-bem.html

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