Além da Vida

"I don't even do this anymore."
Apesar do que vem se revelando como consenso, não é de agora que o eterno ícone do velho oeste Clint Eastwood vem se arriscando em filmes com temáticas mais emocionais. Desde os anos 70 podemos encontrar obras em sua filmografia que revelam um lado do cineasta que é comumente reprimido em suas aparições frente às câmeras – e se Gran Torino foi mesmo sua despedida como ator, merece aplausos por ter saído de cena com um personagem puramente simbólico para sua carreira. Artista sempre muito versátil, Eastwood já foi do policial para o romance e do faroeste para a guerra, além de investir em dramas tanto de época quanto contemporâneos. Após confiar nas emoções e deixá-las o guiar no falho – mas transcendente – Invictus, Eastwood arrisca a enfrentar território mais frágil com Além da Vida, precisando exercitar na composição da história aquela sutileza demonstrada em Menina de Ouro e a abordagem ambígua alcançada em Sobre Meninos e Lobos.

Além da Vida foi descrito por Eastwood como três histórias diferentes sobre pessoas que enfrentaram momentos estressantes, e de como estes personagens se convergem. “Muito como os filmes franceses foram no passado”, ele diz, “quando as histórias convergiam e o destino guiava cada pessoa em direção à outra”. Esta visão romantizada do cineasta de fato reflete a sensação por trás do longa-metragem, com a diferença de que as três histórias aqui nunca chegam a convergir de maneira emocionalmente satisfatória, deixando a audiência tão perdida e desconexa com a narrativa quanto os personagens parecem estar com a vida doída que parecem enfrentar. Além da Vida parece três filmes diferentes sobre um mesmo tema, semelhantes em estilo e clima, mas distantes em termos essencialmente dramáticos. Isso ocorre por dois motivos em especial: o roteiro de Peter Morgan segue uma estrutura rígida pobre e a edição de Joel Cox e Gary Roach em nenhum momento consegue oferecer fluidez e ritmo na hora de narrar as respectivas histórias.

Os protagonistas das histórias são George (Matt Damon), Marie (Cécile De France) e Marcus (Frankie McLaren). George é um médium que, após o constante desgaste provocado pela “maldição” em sua vida pessoal, decidiu abandonar o trabalho em busca de uma vida mais tranquila e normal. Marie, por sua vez, é uma jornalista popular que, após uma experiência de quase-morte, começa a questionar fatores polêmicos demais para manter seu bom nome entre os profissionais. Já Marcus é um garoto que se vê obrigado a lidar com a ruína de sua família, incluindo perdas irreparáveis. Todos de lugares diferentes do mundo – Estados Unidos, França e Inglaterra, respectivamente – os personagens se vêem unidos pela morte enquanto tentam compreender, aceitar e fugir dela.

Morgan, que já escreveu textos excelentes para Frost/Nixon e A Rainha, está acostumado a conceber histórias baseadas em fatos verídicos, tendo assinado ainda O Último Rei da Escócia. Já seu roteiro para Além da Vida, apesar de apresentar personagens únicos e verdadeiramente interessante, peca na estrutura de tal forma que os personagens ficam enclausurados em um espaço limitado, não podendo evoluir a toda medida tanto no aspecto psicológico quanto no emocional, já que o tom episódico adotado pelo roteiro impede que emoções mais fortes possam aflorar. Apesar do que foi dito por Eastwood, as histórias aqui não convergem. O texto pausadamente oscila as respectivas histórias paralelas, sem qualquer rima ou significância maior oferecendo união umas com as outras. Assim, seguimos a história do personagem x por um bom tempo, depois passamos para o personagem y e, em seguida, para o personagem z. Esse ciclo se repete exaustivamente ao longo da metragem de mais de duas horas de duração. O fato de cada respectivo segmento ser demorado apenas enfraquece ainda mais o ritmo da película, fortalecendo por sua vez a distância que acaba crescendo entre a audiência – quando deveria acontecer o contrário. Até porque, como já dito, estes personagens são muito especiais e certamente mereciam uma estrutura melhor para serem trabalhados.

Dito isso, os três filmes que se encontram desfragmentados em Além da Vida são muito bons. Eastwood aborda o material como o cético que é e não está interessado em mostrar espíritos ou visões do pós-vida, nem tampouco está querendo oferecer respostas – que obviamente não tem. Assim, ele fica livre para explorar os conceitos que movem os personagens, criando planos muito bonitos com a ajuda da fotografia de Tom Stern, imprimindo nuances muito verdadeiras aos dilemas e às sensações tão particulares destas pessoas que soam dolorosamente reais. Seja George, cuja paixão por Charles Dickens o traz sossego na noite e, mais a frente, se torna especialmente importante para seu futuro. Marie, cuja fragilidade nos atinge de maneira inesperada e especialmente Marcus, cujo dilema familiar é de assolar qualquer um, nos forçando a torcer por um final feliz mesmo contra todas as probabilidades. E são estes personagens e a forma com a qual são apresentados que mantém Além da Vida com pulso, já que não há qualquer ritmo, fascínio ou mesmo catarse para nos envolver além disso. Ainda neste quesito, o elenco se revela à altura, com atuações realmente sinceras do trio central e participações memoráveis de Bryce Dallas Howard, Lyndsey Marshal e Jenifer Lewis.

Eastwood, com sua câmera envolvente e trilha sonora melancólica quase assombrosa, nos mantém de certa forma instigados (a sequência impressionante do tsunami logo de início sugere outro tipo de filme). Por outro lado, sua resistência em explorar a estrutura da película e ousar além da limitação acadêmica se revela no mínimo decepcionante. Tanto quanto o ato final oferecido para os personagens que, apesar de apresentar suas virtudes, surge totalmente anti-climático. Conduzido de forma contida – uma escolha errada, já que era necessário algo realmente pungente para se contrapor ao restante da metragem  – o desfecho é singelo em excesso e talvez a síntese mais pura do filme: bem intencionado, com válidos atributos; profundo não na significância, mas na transparência.
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Hereafter (2010)
Direção: Clint Eastwood

Roteiro: 
Peter Morgan
Elenco: Matt Damon, Cécile De France, Frankie McLaren, George McLaren, Bryce Dallas Howard, Thierry Neuvic, Jay Mohr, Lyndsey Marshal, Jenifer Lewis
(Drama, 129 minutos)

22 comentários:

lematinee disse...

Vc citou em pontos interessantes a respeito do filme. Nao tinha me dado conta que a cena do tsunami realmente sugere outro tipo de filme, rs

Bem verdade, as 3 historias nao se convergiram de forma mto boa, mas achei mto linda a cena do menino Marcus com George. Já Marie sepre me mostrou desinteressante de qualquer forma.
Achei a trilha de Eastwood por vezes exageradamente melancolica...


Abs!

BRENNO BEZERRA disse...

Achei muito fraquinho. Nada me empolgou. Disputar o Oscar de efeitos por uma única tsunami foi exagero.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Poxa, acho que você tem certa razão quanto a essa questão da estrutura do longa, mas ainda assim gosto muito de ALÉM DA VIDA. Delicado, emocionante sem ser meloso (algo muito comum nesse tipo de filme, não?), e com 3 histórias realmente comoventes. Talvez a da Marie seja a mais fraca, mas já vale pelo tsunami (é só um tsunami, mas que tsunami! Mereceu muito a indicação ao Oscar).

Leonardo Ribeiro disse...

Eu até acho que Clint dá uns tropeços quando faz um drama, mas ainda dá um show. Espero ansiovo para ver esse novo. (:

Luis Galvão disse...

Concordo contigo. Acho que o filme tem um 'quê' sempre especial de Eastwood e do roteiro de Peter (um roteirista que adoro).

renatocinema disse...

Tenho gostado muito dos trabalhos do diretor. Irei assistir apesar de as críticas, no Brasil, terem sido bem divididas.

Sobre True Blood eu só assisti até a segunda temporada. Ainda não consegui a terceira.

abraços

Kamila disse...

Eu adorei este filme. Considero o melhor do Eastwood desde "Cartas de Iwo Jima". Uma linda obra, tocante e emocionante.

Mayara Bastos disse...

Estava desanimada com o filme. Mas, já que é do Clint dirigindo um gênero "inédito" em sua carreira, deve valer por isso. ;)

Pedro Henrique Gomes disse...

Acho um filmaço! Um dos melhores do Clint (com Gran Torino, As Pontes de Madison e outros 1 ou dois).
Abs!

Alyson Xyzyx disse...

É. Pelo jeito realmente é uma obra atipica do Clint, antes tão elogiado por seus filmes. Ainda não tive a oportunidade de ver, mas assim que sair verei, pois as qualidades que você apontou no texto valeu uma conferida, com certeza.

Abraço!

Matheus Pannebecker disse...

Decepcionante do início ao fim. "Além da Vida", pelo menos pra mim, nunca decola. Sempre morno. E aquele final cafona do Matt Damon e da Cecile de France foi de doer...

Otavio disse...

Clint não erra! E tenho dito!
Abs!

Cristiano Contreiras disse...

Faço coro com Otavio. Ao contrário de "Inverno da Alma", esse sim é lento e roda, roda e roda, e não sai do lugar; este filme tem propriedade, é sensível. São dramas reais, críveis. O elenco e a direção são fatores que contribuem pra isso, claro.

Eu acho um pequeno filme esse, é claro que existem outros bem melhores de Clint.

Realmente, a cena do Tsunami do começo é impactante, e parecia que o filme tomaria um rumo mais ágil e com edição frenética, mais tensão ou melodrama. Mas, o roteiro permaneceu contido, mas ainda sim: belo.

Abraço

Elton Telles disse...

/\
Cris sempre achando uma maneira de criticar "Inverno da Alma" negativamente. Hahahaha!

Bravo, Wally.
Ótimo texto!
Já tinha lido a algum tempo, mas queria ter assistido antes para depois comentar. Pra mim, foi uma decepção tremenda esse novo filme do Clint, um dos piores de sua carreira. Chatíssimo e esquecível, concordo que o ponto nevrálgico é a falta de acabamento dos personagens e as histórias pobres e sufocadas para gerar um encontro no terceiro ato. E o final... francamente.

Fato é que tudo isso compromete o restante, desde às atuações até a direção enfraquecida de Clint, que se deleita nos clichés técnicos de algumas cenas manjadas. E esse sintoma sentimentalista do diretor aflora cada vez mais.

E senti que "Além da Vida" também é bem manipulativo nessa questão do pós-morte, como quando Damon diz "que lá é muito melhor do que aqui" e os mortos que se comunicam com eles estão muito melhores no "limbo" e talz.

Fazendo um contraponto com o restante, a cena do tsunami é soberba, a única memorável de um drama rasteiro que, sinceramente, é complicado dizer que a melhor cena é digna de um filme de Michael Bay.


abs!

Weiner disse...

Finalmente pude conferir este longa (buscava assisti-lo no cinema, impreterivelmente) e posso dizer que gostei de algumas coisas e detestei outras. Das três histórias, acho a de Cecile a mais desinteressante, porém ela entrega, ao lado de Bryce Dallas Howard, uma das melhores interpretações do longa - acabei envolvendo-me com seu relato por conta do desempenho da atriz. A história do menino começa maravilhosamente bem, mas esfria e se torna algo decepcionante. Matt Damon também não decola, e seu personagem não acrescenta muito (repito Bryce aqui, para dizer que sem ela, provavelmente Damon estaria inútil dentro do filme).
Eastwood e Morgan, por outro lado, entregam boas performances, e isto porque não apelam quase nunca, mantendo-se à distância do tema espinhoso. Agora, diga-me, pra quê aquele final açucarado?

Rafael Moreira disse...

Eu adorei Além da Vida. Principalmente por não apelar no tema. É um filme belo com um montagem muito interessante. E boas atuações. O que mais me incomodou, porém, foi a longa duração desnecessária e aquele final forçado. Mas Eastwood dirige muito bem o filme.

Rodrigo disse...

Também não me envolvi com o roteiro, e achei a edição faquíssima. Acompanho seu blog desde que era cine vita, mas nunca havia comentado antes. Acho que esse seu meravilhoso texto me inspirou.

Flávia Hardt Schreiner disse...

Um dos piores filmes de Clint. Pena, pois poderia ter sido melhor.

Dewonny disse...

Ainda ñ vi esse, mas muito me interessa, sou fã do Clintão velho de guerra..hehe..
Tbm gosto do Matt Damon, por esses 2 nomes, aposto q irei gostar desse filme!
Mudando o assunto, cara, vc gostaria de participar de um grupo de cinema do yahoo na qual sou moderador? pô, tu é um dos caras mais inteligentes q melhor escreve nos blogs q eu frequento, acho q vc só iria agregar lá no grupo..hehe..se quiser, me avisa lá no meu blog q lhe mando um convite, passa um email pra isso..se ñ, td bem brother, deixa pra lá..rs..
Abs! Diego!

Mateus Selle Denardin disse...

É, problemas de montagem vêm assolando os filmes de Eastwood. Já em A TROCA era grave isso. Também apontei em meu texto, e concordo com muito do que você escreveu. Certamente o ponto alto é diretor e roteirista não se preocuparem em dar opinião sobre a existência ou não de vida após a morte, espíritos, etc,. mas sim em estarem sempre acompanhando -- e entendendo -- seus personagens e seus dramas. Tem falhas, mas seus méritos são muito maiores. Dei 6/10 ou 3/5.

Anderson Siqueira disse...

Achei o roteiro fraco e previsível. Mas o filme não é de todo ruim.
Ah! Estou concorrendo a ingressar na Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos. Dê uma visitada no meu blog e se achar bacana (conteúdo e layout)... Quero vir a somar.
Abraço.
=]

Renan Matos disse...

É. Realmente. Algo que posso dizer sobre o Clint é algo que talvez ele acredite e que ele quis filmar para sua pessoa. Não julgarei esse mestre.
Mas em mim também. Nada me tocou. Roteiro realmente prevísivel e fraco.

Abraço pássaros mortos

http://thomaslumiere.blogspot.com/

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