Amor por Contrato

"We're going to do some serious damage here."
Em caso extremamente raro, a abordagem de Amor por Contrato ocorreu sem qualquer conhecimento prévio sobre o que se tratava. Algo cada vez mais difícil de conseguir em época de divulgação em massa e prévias que dizem muito mais do que precisam. Em seus primeiros minutos, as sensações de curiosidade e instigação, provocadas por um clima ambíguo e peculiar, já oferecem um grande diferencial para o longa-metragem – que, ao revelar o que de fato ocorria em cena, não só é sutil e nada expositivo (algo também raro), mas se revela também original, fazendo jus á curiosidade criada em torno de sua apresentação. Por isso, antes de escrever qualquer coisa mais específica sobre Amor por Contrato, aviso que trata-se de um filme cujos primeiros minutos serão muito mais eficientes para aqueles que permanecerem ignorantes quanto ao seu enredo. Poucos minutos, é verdade, mas fazem uma bela diferença.

Quando o filme começa, ao excelente som de Nick Urata, acompanhamos uma família – os Joneses – chegando em uma cidade nova. Enquanto dirigem, a nova casa que lhes espera é mobiliada. Quando chegam, está tudo perfeitamente no lugar. A partir daí, se apresentam aos vizinhos e começam a ganhar a simpatia de todos, desfilando seus bens valiosos ao passo que sua dinâmica como família se revela mais e mais peculiar para a audiência. A verdade é que, como a personagem de Kate (Demi Moore) insiste em constatar: eles não são uma família, mas uma unidade. Os Joneses são a fabricação do sonho americano, e chegaram nesta cidade nova para vendê-lo. Uma família composta, na verdade, por quatro completos estranhos unidos por contrato.

A forma esperta e divertida com a qual o cineasta estreante Derrick Borte abre seu filme instaura um clima proveitoso que se mantém por boa parte da metragem. Abordamos esta família de aparência convencional apenas para sermos surpreendidos por detalhes sórdidos – o “casal” não dorme junto e a “filha” tenta entrar na cama com o “pai” – que por sua vez nos instigam abruptamente e nos faz questionar o que diabos está acontecendo naquela casa. Quando a verdade é finalmente revelada, o filme ainda não perde o fascínio, abrindo caminho para seus personagens executarem suas artimanhas sutilmente publicitárias ao se conectarem com os moradores da comunidade. Levam os melhores produtos para dentro de casa e, por meio de festas, confraternizações e simples caminhadas, iniciam modas e introduzem tendências. Em síntese, revolucionam a cidade, ao mesmo tempo em que enviam a imagem de que são uma família perfeita.

Muito mais do que um simples enredo original levemente bem humorado e divertido (ainda assim, vale a pena ressaltar que esta não é uma comédia, apesar da forma como foi vendida), Amor por Contrato atinge outro nível ao transformar o que poderia ter sido uma simples narrativa em uma sátira mordaz. Do ponto de vista literal, os Joneses são uma família de mentira contratada por uma empresa para vender produtos, mas o roteiro espelha neles a verdadeira família americana suburbana. A aparência é a da perfeição, mas a união é de fato especialmente problemática. Nunca deixam transparecer isso, claro, com o casal diversamente se agarrando em público para demonstrar o quanto são apaixonados e felizes. As sacadas inteligentes do roteiro são o suficiente para envolver e nos fazer criar empatia pelos personagens apesar de sua natureza. E quando estes precisam de fato relacionar entre si – podem não ser uma família, mas são seres humanos – vemos escancaradas vulnerabilidades gritantes. Sejam óbvias fraquezas ou aquelas mais particulares. Ânsias, desejos, desordens e até mesmo afeto.


Investindo na excelente trilha sonora, no ritmo ágil e no charme dos atores, Borte mantém Amor por Contrato constantemente interessante. Até mesmo em sequências esquemáticas como aquela em que encontramos todos os personagens sofrendo por algum motivo ao som de uma música comovente. Até mesmo aí, o filme almeja funcionar, dada a eficiência com a qual tudo é executado. Com a audiência instigada e a trama cada vez mais segura, Borte decide finalmente ousar. Paralelamente aos Joneses, acompanhamos detalhes na vida de outra família: os Symonds, caracterizados pelo casal Larry (Gary Cole) e Summer (Glenne Headly). Se os Joneses são a sátira do deturpado sonho americano, os Symonds representam o estigma em sua forma literal. E, quando certo incidente trágico toma conta da metragem, vemos o filme amadurecer ainda mais, evoluindo na melancolia à qual até então apenas sugeria. Logo após tal engrenagem da trama, porém, o roteiro de Borte começa a regredir – e não para até chegar nos créditos finais.

O último ato do longa-metragem se revela desastrosamente previsível e tolo. Fugindo do tom realista e melancólico, Borte pesa a mão no melodrama e força a barra, levando a momentos de catarse emocional superficiais. Tudo devidamente esquematizado por um roteiro que, a partir deste momento, liga no piloto automático e só se auto-destrói ao chegar no final feliz. É lamentável, já que Amor por Contrato poderia ter sido uma obra obrigatória ou mesmo um filme zeitgeist, como vem sendo divulgado. Infelizmente tais fatores acabam não vingando e vemos desperdiçados personagens interessantes em frivolidades óbvias do cinema norte-americano – logo na ebulição, apagam o fogo e sacrificam o realismo. Tudo em prol da mesma artificialidade que o filme até certo ponto criticava. Impressões finais amargas postas de lado, ainda há muito para se aproveitar em Amor por Contrato, que é extremamente memorável – até se banalizar.
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The Joneses (2009)
Direção: Derrick Borte

Roteiro: 
Derrick Borte, estória de Randy T. Dinzler
Elenco: David Duchovny, Demi Moore, Amber Heard, Ben Hollingsworth, Gary Cole, Glenne Headly, Lauren Hutton, Chris Williams, Christine Evangelista, Robert Pralgo
(Drama, 96 minutos)

7 comentários:

Kamila disse...

Quero assistir a este filme sem muitas expectativas. Não me parece ser aquela obra boa.

James Lee disse...

Quero assistir, a sinopse é muito interessante. Bom ver que de vez em quando Moore acerta em alguns papéis.

Weiner disse...

Impressionante como eu estava adorando a história que você contava na crítica (achei o argumento bem original). Gostei quando você fala que Derrick borte mantém o filme constantemente interessante, utilizando inclusive de tom crítico e dispensando o previsível. E aí... desfecho desastroso. Que anticlímax. Se bem que por sua cotação eu já esperava alguns erros serem apontados - até o último parágrafo, tudo parecia perfeito.

Mayara Bastos disse...

Tem uma premissa interessante, apesar de venderem um filme como uma comédiazinha romântica. À conferir.

Beijos! ;)

Otavio disse...

David Duchovny e Demi Moore juntos? Deve ser triste esse filme...

Abs!

Alan Raspante disse...

Oi Wally... Ah, sabe que gosto de Demi Moore? Acho ela simpática, mas convenhamos seus últimos trabalhos ve sendo bem aquém do esperado, ruins mesmo! hahahaha

Bem a história central do filme é bacana, achei bem interessante. Uma pena que mais uma vez o filme seje mau vendido em terras tupiniquins!

[]'s

Cristiano Contreiras disse...

Eu vi o trailer e não me senti instigado a conferir. Pra falar a verdade, eu acho David Duchovny péssimo ator...espero que neste convença. E, ao contrário de todos, eu gosto de Demi Moore...desde sempre, acho que ela tem melhorado bastante. Conhece o filme "Half Light (recebeu o título brazuca de "Protegida por um anjo", tsc)? Ela atua muito bem!

Este filme eu verei, mas bem depois...sem pressa. Gostei da forma de construção desse seu texto. Parabéns!

abraço

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