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Além da Vida

"I don't even do this anymore."
Apesar do que vem se revelando como consenso, não é de agora que o eterno ícone do velho oeste Clint Eastwood vem se arriscando em filmes com temáticas mais emocionais. Desde os anos 70 podemos encontrar obras em sua filmografia que revelam um lado do cineasta que é comumente reprimido em suas aparições frente às câmeras – e se Gran Torino foi mesmo sua despedida como ator, merece aplausos por ter saído de cena com um personagem puramente simbólico para sua carreira. Artista sempre muito versátil, Eastwood já foi do policial para o romance e do faroeste para a guerra, além de investir em dramas tanto de época quanto contemporâneos. Após confiar nas emoções e deixá-las o guiar no falho – mas transcendente – Invictus, Eastwood arrisca a enfrentar território mais frágil com Além da Vida, precisando exercitar na composição da história aquela sutileza demonstrada em Menina de Ouro e a abordagem ambígua alcançada em Sobre Meninos e Lobos.

Além da Vida foi descrito por Eastwood como três histórias diferentes sobre pessoas que enfrentaram momentos estressantes, e de como estes personagens se convergem. “Muito como os filmes franceses foram no passado”, ele diz, “quando as histórias convergiam e o destino guiava cada pessoa em direção à outra”. Esta visão romantizada do cineasta de fato reflete a sensação por trás do longa-metragem, com a diferença de que as três histórias aqui nunca chegam a convergir de maneira emocionalmente satisfatória, deixando a audiência tão perdida e desconexa com a narrativa quanto os personagens parecem estar com a vida doída que parecem enfrentar. Além da Vida parece três filmes diferentes sobre um mesmo tema, semelhantes em estilo e clima, mas distantes em termos essencialmente dramáticos. Isso ocorre por dois motivos em especial: o roteiro de Peter Morgan segue uma estrutura rígida pobre e a edição de Joel Cox e Gary Roach em nenhum momento consegue oferecer fluidez e ritmo na hora de narrar as respectivas histórias.

Os protagonistas das histórias são George (Matt Damon), Marie (Cécile De France) e Marcus (Frankie McLaren). George é um médium que, após o constante desgaste provocado pela “maldição” em sua vida pessoal, decidiu abandonar o trabalho em busca de uma vida mais tranquila e normal. Marie, por sua vez, é uma jornalista popular que, após uma experiência de quase-morte, começa a questionar fatores polêmicos demais para manter seu bom nome entre os profissionais. Já Marcus é um garoto que se vê obrigado a lidar com a ruína de sua família, incluindo perdas irreparáveis. Todos de lugares diferentes do mundo – Estados Unidos, França e Inglaterra, respectivamente – os personagens se vêem unidos pela morte enquanto tentam compreender, aceitar e fugir dela.

Morgan, que já escreveu textos excelentes para Frost/Nixon e A Rainha, está acostumado a conceber histórias baseadas em fatos verídicos, tendo assinado ainda O Último Rei da Escócia. Já seu roteiro para Além da Vida, apesar de apresentar personagens únicos e verdadeiramente interessante, peca na estrutura de tal forma que os personagens ficam enclausurados em um espaço limitado, não podendo evoluir a toda medida tanto no aspecto psicológico quanto no emocional, já que o tom episódico adotado pelo roteiro impede que emoções mais fortes possam aflorar. Apesar do que foi dito por Eastwood, as histórias aqui não convergem. O texto pausadamente oscila as respectivas histórias paralelas, sem qualquer rima ou significância maior oferecendo união umas com as outras. Assim, seguimos a história do personagem x por um bom tempo, depois passamos para o personagem y e, em seguida, para o personagem z. Esse ciclo se repete exaustivamente ao longo da metragem de mais de duas horas de duração. O fato de cada respectivo segmento ser demorado apenas enfraquece ainda mais o ritmo da película, fortalecendo por sua vez a distância que acaba crescendo entre a audiência – quando deveria acontecer o contrário. Até porque, como já dito, estes personagens são muito especiais e certamente mereciam uma estrutura melhor para serem trabalhados.

Dito isso, os três filmes que se encontram desfragmentados em Além da Vida são muito bons. Eastwood aborda o material como o cético que é e não está interessado em mostrar espíritos ou visões do pós-vida, nem tampouco está querendo oferecer respostas – que obviamente não tem. Assim, ele fica livre para explorar os conceitos que movem os personagens, criando planos muito bonitos com a ajuda da fotografia de Tom Stern, imprimindo nuances muito verdadeiras aos dilemas e às sensações tão particulares destas pessoas que soam dolorosamente reais. Seja George, cuja paixão por Charles Dickens o traz sossego na noite e, mais a frente, se torna especialmente importante para seu futuro. Marie, cuja fragilidade nos atinge de maneira inesperada e especialmente Marcus, cujo dilema familiar é de assolar qualquer um, nos forçando a torcer por um final feliz mesmo contra todas as probabilidades. E são estes personagens e a forma com a qual são apresentados que mantém Além da Vida com pulso, já que não há qualquer ritmo, fascínio ou mesmo catarse para nos envolver além disso. Ainda neste quesito, o elenco se revela à altura, com atuações realmente sinceras do trio central e participações memoráveis de Bryce Dallas Howard, Lyndsey Marshal e Jenifer Lewis.

Eastwood, com sua câmera envolvente e trilha sonora melancólica quase assombrosa, nos mantém de certa forma instigados (a sequência impressionante do tsunami logo de início sugere outro tipo de filme). Por outro lado, sua resistência em explorar a estrutura da película e ousar além da limitação acadêmica se revela no mínimo decepcionante. Tanto quanto o ato final oferecido para os personagens que, apesar de apresentar suas virtudes, surge totalmente anti-climático. Conduzido de forma contida – uma escolha errada, já que era necessário algo realmente pungente para se contrapor ao restante da metragem  – o desfecho é singelo em excesso e talvez a síntese mais pura do filme: bem intencionado, com válidos atributos; profundo não na significância, mas na transparência.
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Hereafter (2010)
Direção: Clint Eastwood

Roteiro: 
Peter Morgan
Elenco: Matt Damon, Cécile De France, Frankie McLaren, George McLaren, Bryce Dallas Howard, Thierry Neuvic, Jay Mohr, Lyndsey Marshal, Jenifer Lewis
(Drama, 129 minutos)

Amor por Contrato

"We're going to do some serious damage here."
Em caso extremamente raro, a abordagem de Amor por Contrato ocorreu sem qualquer conhecimento prévio sobre o que se tratava. Algo cada vez mais difícil de conseguir em época de divulgação em massa e prévias que dizem muito mais do que precisam. Em seus primeiros minutos, as sensações de curiosidade e instigação, provocadas por um clima ambíguo e peculiar, já oferecem um grande diferencial para o longa-metragem – que, ao revelar o que de fato ocorria em cena, não só é sutil e nada expositivo (algo também raro), mas se revela também original, fazendo jus á curiosidade criada em torno de sua apresentação. Por isso, antes de escrever qualquer coisa mais específica sobre Amor por Contrato, aviso que trata-se de um filme cujos primeiros minutos serão muito mais eficientes para aqueles que permanecerem ignorantes quanto ao seu enredo. Poucos minutos, é verdade, mas fazem uma bela diferença.

Quando o filme começa, ao excelente som de Nick Urata, acompanhamos uma família – os Joneses – chegando em uma cidade nova. Enquanto dirigem, a nova casa que lhes espera é mobiliada. Quando chegam, está tudo perfeitamente no lugar. A partir daí, se apresentam aos vizinhos e começam a ganhar a simpatia de todos, desfilando seus bens valiosos ao passo que sua dinâmica como família se revela mais e mais peculiar para a audiência. A verdade é que, como a personagem de Kate (Demi Moore) insiste em constatar: eles não são uma família, mas uma unidade. Os Joneses são a fabricação do sonho americano, e chegaram nesta cidade nova para vendê-lo. Uma família composta, na verdade, por quatro completos estranhos unidos por contrato.

A forma esperta e divertida com a qual o cineasta estreante Derrick Borte abre seu filme instaura um clima proveitoso que se mantém por boa parte da metragem. Abordamos esta família de aparência convencional apenas para sermos surpreendidos por detalhes sórdidos – o “casal” não dorme junto e a “filha” tenta entrar na cama com o “pai” – que por sua vez nos instigam abruptamente e nos faz questionar o que diabos está acontecendo naquela casa. Quando a verdade é finalmente revelada, o filme ainda não perde o fascínio, abrindo caminho para seus personagens executarem suas artimanhas sutilmente publicitárias ao se conectarem com os moradores da comunidade. Levam os melhores produtos para dentro de casa e, por meio de festas, confraternizações e simples caminhadas, iniciam modas e introduzem tendências. Em síntese, revolucionam a cidade, ao mesmo tempo em que enviam a imagem de que são uma família perfeita.

Muito mais do que um simples enredo original levemente bem humorado e divertido (ainda assim, vale a pena ressaltar que esta não é uma comédia, apesar da forma como foi vendida), Amor por Contrato atinge outro nível ao transformar o que poderia ter sido uma simples narrativa em uma sátira mordaz. Do ponto de vista literal, os Joneses são uma família de mentira contratada por uma empresa para vender produtos, mas o roteiro espelha neles a verdadeira família americana suburbana. A aparência é a da perfeição, mas a união é de fato especialmente problemática. Nunca deixam transparecer isso, claro, com o casal diversamente se agarrando em público para demonstrar o quanto são apaixonados e felizes. As sacadas inteligentes do roteiro são o suficiente para envolver e nos fazer criar empatia pelos personagens apesar de sua natureza. E quando estes precisam de fato relacionar entre si – podem não ser uma família, mas são seres humanos – vemos escancaradas vulnerabilidades gritantes. Sejam óbvias fraquezas ou aquelas mais particulares. Ânsias, desejos, desordens e até mesmo afeto.


Investindo na excelente trilha sonora, no ritmo ágil e no charme dos atores, Borte mantém Amor por Contrato constantemente interessante. Até mesmo em sequências esquemáticas como aquela em que encontramos todos os personagens sofrendo por algum motivo ao som de uma música comovente. Até mesmo aí, o filme almeja funcionar, dada a eficiência com a qual tudo é executado. Com a audiência instigada e a trama cada vez mais segura, Borte decide finalmente ousar. Paralelamente aos Joneses, acompanhamos detalhes na vida de outra família: os Symonds, caracterizados pelo casal Larry (Gary Cole) e Summer (Glenne Headly). Se os Joneses são a sátira do deturpado sonho americano, os Symonds representam o estigma em sua forma literal. E, quando certo incidente trágico toma conta da metragem, vemos o filme amadurecer ainda mais, evoluindo na melancolia à qual até então apenas sugeria. Logo após tal engrenagem da trama, porém, o roteiro de Borte começa a regredir – e não para até chegar nos créditos finais.

O último ato do longa-metragem se revela desastrosamente previsível e tolo. Fugindo do tom realista e melancólico, Borte pesa a mão no melodrama e força a barra, levando a momentos de catarse emocional superficiais. Tudo devidamente esquematizado por um roteiro que, a partir deste momento, liga no piloto automático e só se auto-destrói ao chegar no final feliz. É lamentável, já que Amor por Contrato poderia ter sido uma obra obrigatória ou mesmo um filme zeitgeist, como vem sendo divulgado. Infelizmente tais fatores acabam não vingando e vemos desperdiçados personagens interessantes em frivolidades óbvias do cinema norte-americano – logo na ebulição, apagam o fogo e sacrificam o realismo. Tudo em prol da mesma artificialidade que o filme até certo ponto criticava. Impressões finais amargas postas de lado, ainda há muito para se aproveitar em Amor por Contrato, que é extremamente memorável – até se banalizar.
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The Joneses (2009)
Direção: Derrick Borte

Roteiro: 
Derrick Borte, estória de Randy T. Dinzler
Elenco: David Duchovny, Demi Moore, Amber Heard, Ben Hollingsworth, Gary Cole, Glenne Headly, Lauren Hutton, Chris Williams, Christine Evangelista, Robert Pralgo
(Drama, 96 minutos)

Tron: Uma Odisséia Eletrônica

"On the other side of the screen, it all looks so easy."
Na época uma revolução cinematográfica, hoje um clássico cult, Tron: Uma Odisséia Eletrônica é um filme curioso. Lançado em 1982, representou um choque para o público da época por dois motivos. Se revelou o primeiro filme a usar em grande escala efeitos computadorizados, resultando em estética que é praticamente 100% digitalizada. Em segundo lugar, inseria a audiência em uma narrativa não só visualmente tecnológica, mas tematicamente também. Ao se passar literalmente dentro do mundo computadorizado, o roteiro escrito pelo diretor Steven Lisberger foi construído em cima de termos extremamente avançados para a época que hoje, claro, são de uso comum. É aí, talvez, que reside o fascínio que move o longa-metragem e que, juntamente com sua conquista técnica, o fez sobreviver por tantos anos. Digo isso porque, apesar de sua temática representar o oposto, Tron é um filme especialmente aborrecido na construção de sua narrativa (surpreendentemente convencional).

A história do filme é ambientada nos anos 80 mesmo, centrada no personagem de Kevin Flynn (Jeff Bridges), um gênio da informática que é hacker e jogador assíduo de jogos computadorizados. Recém-demitido da gigantesca empresa ENCOM por um homem que roubou seus softwares de jogos, Flynn tenta hackear a rede da empresa, dominada por um programa de controle master conhecido como MCP. Em uma destas tentativas, Flynn sofre uma desintegração molecular e é enviado para dentro da rede, surgindo como um programa em meio a tantos outros que ele mesmo criou.
A impressão que ficamos ao fim da sessão de Tron: Uma Odisséia Eletrônica é que o cineasta Steven Lisberger concebeu uma idéia genial e, com a ajuda da Disney, criou uma estética que não só possui uma rima fantástica com a história, mas almejou transportar a audiência (ao menos da época) a uma outra realidade. E, basicamente, ficou nisso. O roteiro do longa-metragem, apesar de ousar no uso inédito de termos altamente tecnológicos e avançados para a época, cria um arco dramático pobre sem grandes recursos. Falta ritmo á condução e, já no ato final, sentimos que a trama está sendo exaustivamente esticada. É complexa a profunda decepção com a qual o filme acaba nos deixando, ao nos encantar com atributos tão fortes apenas para deixar profundamente a desejar na execução geral.


Bridges, no papel do protagonista, diverte o suficiente para deixar seu personagem mais relevante. Em contraponto, o tal MCP é apenas uma espécie de HAL-9000 sem o suspense e a virtude simbólica. São antagonistas cuja relação não sai do simplista, como se povoassem um mero desenho-animado televisivo. O escopo aqui, porém, requer muito mais do que uma aventura banal como esta. Existem, claro, momentos preciosos, onde a inspiração parece culminar em algo mais valioso. Destaco aqui o momento onde os personagens (programas) param para beber de uma fonte de energia, se tornando obcecados pelo efeito que causam neles. Tirando momentos raros como este e, friso mais uma vez, a linguagem totalmente original, a narrativa flui por todos os caminhos previsíveis e, logo, enfadonhos.




Apesar dos elogios à parte técnica de Tron: Uma Odisséia Eletrônica, é bem óbvio que esta não envelheceu bem e, hoje, será difícil encontrar quem não torça o nariz ou não consiga se entreter por ela. Ela é simples na abordagem de efeitos computadorizados no sentido de que empalidece diante do que já vem sendo realizado. Ainda assim, a estética é hipnotizante o suficiente para vencer os olhos, funcionando ainda ao lado da trilha sonora eficiente (e também particularmente fora dos padrões). Ainda sobre o setor técnico, elogios óbvios merecem ir à equipe sonora, habilmente mesclando sons e criando outros para criar uma mundo ficcional o mais palpável possível.

Mundo este que, no final das contas, oferece agrados o suficiente para fazer a obra funcionar em ao menos um nível: o da diversão passageira. Não há nada mais para Tron. E este só sobrevive como um clássico cult, mesmo após quase 30 anos, por causa de sua bem-vinda contribuição técnica e sua ousadia de abordar território praticamente inóspito. Há aquele prazer quase mágico de se conferir uma ficção-científica autêntica, mas este conceito não consegue se sustentar por muito tempo, dada a fragilidade da narrativa. Quando os personagens se tornam secundários para a idéia central e o texto comete atrocidades como certo beijo gratuito no último ato. Tron vai do refrescante ao burocrático em milissegundos. Filme razoável que poderia ter sido emblemático.
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TRON (1982)
Direção: Steven Lisberger

Roteiro: 
Steve Lisberger, baseado em estória própria co-escrita por Bonnie MacBird
Elenco: Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David Warner, Cindy Morgan, Barnard Hughes, Dan Shor, Peter Jurasik, Tony Stephano
(Ficção-científica, 96 minutos)

Tabu

"How anyone feels when they look at them doesn't really matter. It's private."
Apesar de ser baseado no livro originalmente intitulado Towelhead (termo de difamação tipicamente americano dirigido aos imigrantes oriundos de terras onde mulheres usam o infame xador), Tabu chegou a se chamar Nada é Particular quando estreou em festivais, já que o título original causou controvérsia na comunidade árabe-americana. O nome original acabou sendo mantido, mesmo após os protestos. Adequado, óbvio, já que retrata muito bem a condição que a personagem da jovem Jasira precisa passar ao viver em uma sociedade americana afundada no preconceito. Além de que, de forma bem simbólica, traduz a repressão sexual da qual a personagem se liberta ao decorrer da história – já que a natureza do xador é inibir, principalmente, as aspirações sexuais e estéticas da mulher. O título Nada é Particular também convém, por outro lado, ao sintetizar de maneira bem explícita o discurso do interessante (ainda que falho) filme, que por sua vez marca a estreia de Alan Ball na direção – sujeito que adora cutucar a ferida do sonho americano.

Lançado no Brasil como O Deserto de Jasira, o livro no qual o filme se inspirou coloca a personagem de descendência árabe em outro tipo deserto: da desolação americana. No filme, Jasira é interpretada por Summer Bishil como uma garota de 13 anos encarando os Estados Unidos durante a primeira Guerra do Golfo, em 1991. Apesar de morar com a mãe, ela é expulsa de casa e enviada para a casa do pai, no Texas, quando deixa o namorado de sua mãe raspar seus pelos pubianos. Vivendo no regime fechado de seu autoritário e hipócrita pai, Jasira se torna cada vez mais oprimida. Paralelamente, sua sexualidade começa a aflorar diante de descobertas e pessoas novas que adentram sua vida. A mais perigosa sendo Travis (Aaron Eckhart), pai de família atraído pela jovem.

A prosa da autora Alicia Erian caiu em boas mãos. Alan Ball, que roteirizou Beleza Americana e criou a maravilhosa série A Sete Palmos, revelou-se um autor inteligente e perspicaz que não só analisa tipos e desconstrói sonhos, mas esmiúça certas noções tidas como verdades absolutas. Ball não vê as coisas como preto e branco, mas camufladas de forma que o certo e o errado tornam-se indistinguíveis. Algo que Ball trabalharia ainda na outra série que criou, True Blood. Tabu, porém, não está nem perto da grandiosidade que Ball já demonstrou possuir. Apesar de já ter dirigido 9 episódios televisivos, é a primeira vez de Ball na condução de um longa-metragem e esse “amadorismo” é notável ao denotarmos a falta de textura da narrativa. Ball divaga durante o discurso excelente que o texto traz a tona, não demonstrando o mesmo instinto infalível que tem na escrita na hora de trabalhar nuances.

Há claras exceções, claro. Ball, como sempre, pinta um belo retrato de como estes personagens todos parecem buscar uma espécie de sonho americano que está longe existir, e o cenário de quase guerra que se aproxima deles deixa tudo muito tenso – e escancara a hipocrisia e o medo disfarçado de alguns. Portanto, Tabu não é só sobre Jasira e suas descobertas sexuais, mas sobre este plano no qual ela está inserida. Uma realidade banalizada que tenta se defender por trás de tabus. Jasira, com toda sua inocência, enxerga estes adultos amargurados à sua volta como eles realmente são, sem saber qual é o caminho que deveria seguir. Os conceitos do filme são claros e alguns diálogos, sensacionais. Nem tudo se encontra, porém, no final das contas. E o desfecho, que deveria representar uma catarse, surge pálido e enfraquecido justo pela abordagem um tanto desconexa do diretor. A trilha sonora, que seria fundamental, é um fracasso, tentando repetir as notas da trilha original de Beleza Americana composta por Thomas Newman, em vão.

Não é só a trilha que surge sem personalidade. A fotografia também possui raros momentos realmente expressivos e a edição deveria ter sido mais enxuta. São detalhes que podem parecem superficiais, mas que surgem imprescindíveis na hora de deixar o longa-metragem com aparência e sensação de obra realmente valiosa. Não é essa a impressão. O filme não deixa, porém, de ser altamente interessante, representando um olhar ácido e introspectivo para dentro da vida de personagens que são completamente fascinantes. O elenco colabora muito para o resultado final, todos atingindo êxito dentro dos respectivos papéis.

Bishil, que tinha 18 anos quando filmou suas cenas como Jasira, revela segurança e um talento natural em sua estreia no Cinema. Ela e Eckhart formam as melhores sequências do filme, principalmente por ele estar tão sensacional no papel que representa uma espécie de Lester Burnham mais jovial e pervertido. Já Peter Macdissi, como o pai de Jasira, encara a canastrice ao exagerar no tom do personagem, deixando-o cair na auto-paródia. Mesmo que o filme oscile diversamente para o tom mais irônico e bem humorado, há uma extravagância na personificação de Macdissi que afasta a audiência ao invés de criar uma sensação intimista. Isto ocorre, porém, com as maravilhosas Maria Bello e Toni Collette, em dois excelentes papéis. Enriquecido então pela versatilidade do elenco e naturalmente esperto por causa do texto em si, Tabu é um recomendável filme que, caso fosse dirigido por algum cineasta mais experiente, provavelmente teria sido bem melhor.
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Nothing is Private (2007)
Direção: 
Alan Ball
Roteiro: 
Alan Ball, baseado em romance de Alicia Erian
Elenco: Summer Bishil, Aaron Eckhart, Peter Macdissi, Toni Collette, Maria Bello, Chris Messina, Carrie Preston, Chase Ellison, Lynn Collins, Matt Letscher, Robert Baker
(Drama, 124 minutos)

O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus

"You can't stop a story being told."

Cineasta que pode ser considerado um auteur, Terry Gilliam partiu da trupe de Monty Python para realizar algumas pérolas de ficção-científica e fantasia nos anos 80 e 90, de Os Bandidos do Tempo a Os 12 Macacos. E, mesmo quando não realizava filmes de gênero, certamente flertava com as sensações provocadas pela imaginação ilimitada – como em Medo e Delírio. Após este filme, porém, ficou um longo período longe das câmeras, apenas retomando o posto em 2005 com o divertido Os Irmãos Grimm. Em seguida, realizaria o duramente criticado Contraponto. Todos filmes de temáticas fantásticas. Com O Mundo Imaginário do Doutor Paranassus, ele não está em terreno novo, portanto. É, porém, o primeiro filme no qual trabalhou diretamente com desenhos de produção desde As Aventuras do Barão de Münchausen – com o qual este filme divide algumas semelhanças temáticas. O que começou como um surto de criatividade de Gilliam logo se transformou em um pesadelo com a morte precoce de seu protagonista, Heath ledger, no meio das filmagens.

Há um diálogo no filme do qual dita: “você não pode interromper uma história de ser contada”. E é, de fato, o que Gilliam levou ao pé da letra ao encarar o desafio de ter que remodelar seu filme para que este convivesse com a lamentável perda de não só seu protagonista, como também um forte talento. No filme, Ledger interpreta Tony, um jovem que é encontrado pela trupe do Imaginário enforcado pelos russos em uma ponte. O Imaginário, por sua vez, é composto pelo Doutor Parnassus (Christopher Plummer), sua filha Valentina (Lily Cole) e o companheiro Anton (Andrew Garfield). Os três armam apresentações país afora promovendo uma imersão na mente de Parnassus que, por sua vez, o transporta aos seus mais loucos sonhos.

É interessante abordar o enredo de O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, acompanhar as engrenagens de sua trama e tentar decifrar a forma com a qual Gilliam trapaceou para que a história funcionasse mesmo sem a presença de Ledger. Curioso, alias, que não dá para perceber verdadeiros furos ou inconsistências em se tratando do personagem e suas motivações. Seu destino é apropriadamente selado e não restam pontas soltas. Os atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell surgem apenas como representações de Tony em projeções diferentes do Imaginário. Apesar dessa bela desenvoltura, porém, não tem como fugir da noção de que, talvez por natureza, trata-se de um filme no mínimo irregular. Tony pode fazer sentido, mas nem tudo que está ocorrendo ao seu redor mantém-se exatamente plausível – mesmo para uma fantasia extravagante.

O verdadeiro valor do filme encontra-se não na narrativa e nas ocorrências factuais que pontuam a metragem, mas sim no retrato de Gilliam da fantasia e, mais especial, no tom de fábula moral contemplado pelo roteiro. O filme oscila cenas no mundo real com as sequências fantásticas dentro do Imaginário e, quando Gilliam realmente decide mergulhar afundo nas temáticas que sobrevoam seu conto, o resultado é sempre virtuoso. O destaque acaba ficando por conta dos flashbacks sobre a vida passada de Parnassus e seu contato com o diabo, Sr. Nick (Tom Waits). Neste aspecto, o filme é um clássico exemplar do gênero, usando da fantasia para brincar com emoções humanas e mitologia fascinante. É excitante, por sua vez, quando Gilliam dá vida ao Imaginário e as jornadas que ocorrem ali dentro, em sequências pontuadas não só pela estética formidável, mas pela natureza conceitual do espectro ao oferecer uma espécie de julgamento contra seu visitante.

Contando com sensacional direção de arte e fotografia excepcional principalmente ao contrastar a magia do Imaginário com os tons provincianos do mundo real, a parte técnica do longa-metragem não deixa nada a desejar ao que Gilliam já realizou em filmes superiores. Juntamente com o figurino indicado ao Oscar, oferece um entusiasmo estético e sensorial que a história em si da película falha ao produzir. Apesar dos vários pontos de interesse e virtude, seja pela narrativa inconsequente ou detalhes banais o filme nunca atinge o status almejado. A impressão que fica é que, com as mudanças obrigatórias no enredo, Gilliam pode ter optado por fazer outro filme ainda na metade da confecção de um, o que deixou elementos confusos e sensações deslocadas, resultando em uma história que falta a congruência necessária para impressionar como seus visuais.

Além da participação extremamente agradável de Ledger, que insere um tom de humor bem-vindo à metragem, o elenco merece elogios pelas atuações eficientes dos jovens Lily Cole e Andrew Garfield. O veterano Christopher Plummer, por outro lado, se limita a personificar certo tipo de papel requerido sobre seu personagem. Faz bem, mas é Tom Waits com o diabo que deixa a impressão mais forte. O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus é, alias, uma inconstâncias de impressões. Fatores lúdicos se misturam com temas humanos em conversão nem sempre fantástica mas que, pelo tempo de uma duração, irá oferecer o escapismo necessário para lhe levar ao seu próprio Imaginário. O interesse não te segue para fora, porém, e o momento vai se perdendo no cinismo de sentimentos. O novo filme de Terry Gilliam, por mais que tente, não vai sobreviver aos cínicos.
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The Imaginarium of Doctor Parnassus (2009)
Direção: 
Terry Gilliam
Roteiro: 
Terry Gilliam, Charles McKeown
Elenco: Christopher Plummer, Lily Cole, Heath Ledger, Andrew Garfield, Verne Troyer, Tom Waits, Johnny Depp, Colin Farrell, Jude Law, Peter Stormare

(Fantasia, 123 minutos)

A Lenda dos Guardiões

"You made them real."

Foi no mínimo inesperado descobrir que Zack Snyder, cineasta que já fez filme de zumbis e adaptações de quadrinho (muito violentas), estava por trás da direção de A Lenda dos Guardiões, uma animação que, apesar de explorar o conceito por trás da guerra, tem na ingenuidade seu fator X. Por outro lado, Snyder, que já teve que trabalhar muito com o fundo verde (e, consequentemente, preenchimento digital) em 300 e Watchmen, já possui alguma experiência muito bem-vinda na área da animação. O que certamente explica um pouco melhor sua presença no projeto. A Lenda dos Guardiões canaliza, portanto, a mais marcante identidade de Snyder: a estética. Cumprindo suas ambições tridimensionais muito bem e explorando ao máximo cores, movimentos e planos profundos, o visual é tão deslumbrante para o gênero da animação quanto os de seus filmes anteriores foram para seus respectivos gêneros. A outra identidade de Snyder (que tanto adoramos), porém, ficou de fora – obviamente. Um pouco perdido entre conservar o “infantil” e adotar um tom mais sombrio, Snyder acaba pecando e cria o primeiro filme realmente irregular de sua curta filmografia.

O filme, do mesmo estúdio do excelente Happy Feet: O Pinguim, prometia render algo no mesmo estilo visual e narrativo. Tira os pinguins, entram as corujas. Tira a música, entra a guerra. Definitivamente, um projeto a ser abordado com maior indiferença. Não é, porém, exatamente o que lhe enfraquece. A história gira em torno basicamente de dois irmãos corujas, Soren e Kludd. Ao se perderem do ninho familiar, são raptados e colocados a serviço da espécie suprema de corujas, que defendem sua “raça ariana” e quer a morte ou a escravidão de todos os outros. Soren, que pertence à tal raça, se revolta contra a oferta deles de treiná-lo para a guerra, partindo atrás dos lendários guardiões de Ga’Hoole para salvar seu irmão.

Para início de conversa, A Lenda dos Guardiões merece elogios logo de cara pelo uso do 3D. Poucas animações das muitas que exploraram o novo conceito de ouro de Hollywood tiveram esse êxito. Snyder incorpora a técnica na história, nunca soando excessivo ou gratuito. Para um filme então que se passa em maior parte no céu, com corujas voando e, diversamente, em conflitos, a tecnologia ofereceu complemento considerável à estética ambiciosa proposta. Sem abrir mão da câmera lenta – sua marca registrada – Snyder deixa o visual da animação clinicamente meticuloso, trabalhando com paletas que oscilam entre as cores reluzentes de um mundo bonito e os tons mais sombrios que enaltecem o clima mais denso de guerra. As imagens são em si deslumbrantes e funcionam perfeitamente no telão do cinema.

Fora a técnica, porém, não há nada de especial em A Lenda dos Guardiões. É uma história “bonitinha” que possui personagens carismáticos e envolventes, lhe prendendo a atenção ao longo da curta metragem – mas não há aquela cena ou aquele diálogo, nenhum verdadeiro momento de inspiração. Os roteiristas John Orloff e Emil Stern, de O Preço da Coragem e Sem Medo de Morrer respectivamente, encaram o mesmo dilema de Snyder quanto à busca transição de gênero. São três nomes vindo de projetos muito adultos repentinamente encarando uma história que requer um olhar completamente diferenciado. Mesmo quando há sensibilidade, esta nunca é explorada o suficiente. Portanto, pode haver o interessante conceito dos irmãos em confronto que, apesar da mesma criação, seguem caminhos opostos – mas tal idéia é desenvolvida de maneira mecânica, sem surpresas ou liberdades criativas. O mesmo vale para a falta de consideração por parte dos pais dos irmãos, que surgem ao desfecho da forma mais burocrática possível.

Se o drama cai no lugar comum, pelo menos a comédia funciona. Grande parte por causa dos personagens geniosos, o humor dificilmente falha. Soa mais genuíno, alias, do que quando a animação assume a característica de “filme sério”, soando ou piegas ou forçado. Por outro lado, há sempre a possibilidade da audiência estar mais suscetível e cair nas graças do roteiro cheio de excessos – que ao menos acerta na hora de retratar a guerra sem honra e glória, mas violenta e cruel. Algo que, de certa forma, é deturpado pela condução grandiosa de Snyder do ato de guerra em si, que se torna a grande atração do filme ao clímax e surge exatamente como uma visão gloriosa de heróis em confronto. O desfecho também poderia ter sido um pouco mais consistente (sem contar, original).

Em termos, A Lenda dos Guardiões é como sua trilha: bonitinho e ordinário. A trilha sonora do indicado ao Oscar David Hirschfelder (Austrália, Elizabeth) é até boa, mas lembra demais as composições de John Williams para a série Harry Potter. O filme, por sua vez, acerta no formato e no acabamento, em bela embalagem. Na hora de abrir e desfrutar, o que encontramos não só deixa a desejar levando em conta as mentes por trás do projeto, como nos deixa com a sensação leve de que fomos meio enganados por todo aquele espetáculo explosivo de imagens magníficas. Colírio para compensar as frivolidades de um longa-metragem “bom” e “agradável”. Definitivamente, não espere mais. 
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Legend of the Guardians: The Owls of Ga'Hoole (2010)
Direção: 
Zack Snyder
Roteiro: 
John Orloff, Emil Stern, baseado em livros de Kathryn Lasky
Elenco: (vozes de) 
Jim Sturgess, Abbie Cornish, Ryan Kwanten, Anthony LaPaglia, Helen Mirren, Sam Neill, Geofrrey Rush, Hugo Weaving, David Wenham, Essie Davis, Joel Edgerton
(Animação, 97 minutos)