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Tiras em Apuros

"I've never seen that movie before."
Depois de reviver seu lâmpejo de gênio de 94 com a ótima sequência O Balconista 2 e de nos mimar com o doce e engraçado (apesar da temática “suja”) Pagando Bem, que Mal Tem?, Kevin Smith decidiu se entregar aos instintos (perigosos), resultando no que talvez seja o filme mais discutível de sua carreira como diretor. A importante diferença aqui, claro, é que ele não assinou o roteiro, marcando a primeira vez que este dirige um longa-metragem não de sua autoria. Não só isso, mas é o primeiro filme dele de um grande estúdio. O que podemos tirar disso, ao que parece, é que Smith resolveu se vender. Algo que definitivamente não surpreende já que, após seu filme de estreia – o excelente O Balconista, filmado com apenas US$25 mil – Smith chegou a declarar que faria qualquer coisa para um estúdio caso lhe pagassem, traindo a confiança dos fãs que apaixonaram pela ambição artística do cineasta. Algo que, definitivamente, não dá as caras em seu mais novo projeto. Resultado: o filme mais bem sucedido (em termos de bilheteria, claro) do cineasta.

O filme é um típico bud cop comedy, sub-gênero americano cansado que gira em torno de dois policiais companheiros que se metem em enrascadas (vide o título nacional a la Tela Quente). Eles são Jimmy Monroe (Bruce Willis) e Paul Hodges (Tracy Morgan), atrapalhados e constantemente humilhados na delegacia. O filme abre com uma curta investigação deles que dá terrivelmente errada, levando à suspensão de ambos. O problema é que Paul, prestes a bancar o casamento da filha, não pode se dar ao luxo de perder o emprego. É quando decide vender uma carta de colecionador e é assaltado. Os amigos partem, então, em busca do valioso artefato, desvendando também a sujeira de Brooklyn.

Apesar de Tiras em Apuros ter sido roteirizado pelos irmãos Robb e Mark Cullen (ambos estreando em um longa-metragem) há muitas cenas, diálogos e referências ao longo do filme que só podem ter sido concebidas por Smith. A sequência inicial horrivelmente forçada, por exemplo, traz o personagem de Morgan questionando um suspeito usando diálogos de outros filmes – com Willis, do outro lado, explicando para a audiência quais são os filmes, o que deixa tudo tão mais torturante. As referências seguem até certo ponto da metragem, nunca soando orgânicas ou espertas. E há também a piada escatológica que não pode faltar em um filme do diretor. Na primeira meia hora da comédia, estamos certos de que estamos vendo algumas das piores cenas do ano. Há, por exemplo, um diálogo patético de Willis com o padrasto de sua filha interpretado por Jason Lee. Como o personagem de Willis pretendia pagar um casamento tão caro com o salário de um mês como policial eu, sinceramente, não sei – mas é o grande dilema e ponta-pé inicial da trama.

Caso você seja tolerante o suficiente para passar pelos primeiros minutos do filme e ainda engolir o enredo, há momentos posteriores que almejam elevar o filme do fracasso. Alguns piadas divertidas, timing cômico ocasionalmente acertado de Tracy Morgan – que tende a cair muito no exagero – e uma atuação bem solta e divertida de Bruce Willis, que entra na brincadeira e parece se divertir. O destaque fica mesmo, porém, para a participação hilária de Sean William Scott como um ladrão drogado que luta Parkour e faz número 2 na casa de suas vítimas –  ele é dono das únicas cenas realmente genuínas.

Humor, portanto, há. Mesmo que 50% das vezes não funcione, os roteiristas se esforçam. Enquanto isso, Smith exagera na forma um tanto extravagante que decide conduzir certas cenas. As sequências de ação, por exemplo, são totalmente toscas. Basicamente, é uma comédia que abusa demais de clichês e da paciência da audiência para tolerar certo tipo de humor muito repetitivo. E mesmo que existam os já citadas momentos de humor eficientes, o que falta de verdade é um embasamento maior onde estes possam se encontrar e formar uma comédia concisa. A história é pífia demais e a sede da audiência pela veia engenhosa de Smith vista em outros filmes nunca vinga. A decepção é inevitável, sem aquele senso de ironia, delicioso sarcasmo e mesclagem sempre ótima do cineasta entre o humor mais escrachado e um núcleo mais emocional. Até porque não dá para se importar por nenhum dos personagens aqui.

Resumindo: alguns bons elementos espalhados e muita mediocridade, Tiras em Apuros, mesmo que você venha o apreciar, será esquecido quase que repentinamente e não reserva para si qualquer futuro. Não é por nada que, mesmo com um astro do calibre de Willis como protagonista, saiu direto em DVD no Brasil. Não merece mais do que isso mesmo. Aborde com a devida cautela.
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Cop Out (2010)
Direção: Kevin Smith

Roteiro: 
Robb Cullen, Mark Cullen
Elenco: Bruce Willis, Tracy Morgan, Sean William Scott, 
Guillermo Díaz, Ana de la Reguera, Kevin Pollack, Adam Brody, Juan Carlos Hernández, Cory Fernandez, Sean Cullen
(Drama, 107 minutos)