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Fale com Ela

"Amor es la cosa más triste quando se va, como una canción de Jobim"
Pedro Almodóvar é um raro caso de cineasta que – como Quentin Tarantino – faz questão de mostrar para a audiência que Cinema é muito mais do que apenas seu trabalho, é uma paixão. A beleza vibrante de seus planos, enquadramentos e ternos momentos de simplicidade arrebatadora são a prova de que Almodóvar goza de uma habilidade irrefutável no que diz respeito à forma como sintetiza tão bem seu instinto passional cinematográfico para seus espectadores tão fiéis. Pois, quando se é fã do Cinema de Almodóvar, realmente não tem como voltar atrás. Mesmo com 30 anos de carreira, é um auteur que continua fazendo nossos sonhos – e Fale com Ela pode muito bem ser (discutivelmente) sua grande obra-prima. Um filme que reúne as virtudes já consolidadas do diretor/roteirista com suas temáticas frequentes: a mulher e a metalinguagem. Como fez inúmeras vezes já – e continuaria a fazer com filmes como Volver Fale com Ela é mais uma bela ode almodovariano às mulheres.

A intrigante história gira em torno do poder que duas mulheres em especial possuem sobre dois homens – mesmo em coma. Benigno Martín (Javier Cámara) é um enfermeiro que cuida de Alicia (Leonar Watling) uma bela jovem que entrou em sono profundo após um atropelamento. Sua vida de homossexual enclausurado e carente de verdadeiros amigos o fecha para uma realidade onde Alicia se torna a única coisa importante; o levando gradativamente ao estado de obsessão. Neste meio tempo, conhece Marco Zuluaga (Darío Grandinetti), cuja amante Lydia González (Rosario Flores) – uma toureira acidentada – também entra em coma.

A sequência de abertura de Fale com Ela é uma das coisas mais lindas que já assisti e, como não poderia deixar de ser, gira em torno dos dois temas prevalecentes de Almodóvar: a mulher e a metalinguagem. Quando o filme abre, presenciamos cena de uma peça onde mulheres aparentemente sonâmbulas vagam (ou dançam) por um espaço repleto de cadeiras. Um homem precisa, então, tirar as cadeiras do caminho para que elas não se machuquem. É a síntese mais poética possível para o principal discurso da obra e, conduzida pelo habitual olhar preciso do cineasta e ainda contando com um uso maravilhoso da música, é capaz de nos levar às lágrimas. Sim, logo na primeira sequência já somos comovidos – como também são os personagens de Benigno e Marco, que assistem à peça com lágrimas nos olhos sem saber o papel que um representará para o outro futuramente (neste momento, eles ainda não se conhecem).

Mais adiante, somos introduzidos às respectivas mulheres que exercerão a influência quase sobrenatural sobre estes homens. Alicia, apenas por narração e flashback. Lydia, por sua vez, surge como uma figura imponente no momento que trabalha como toureira, ao passo que escancara sua vulnerabilidade quando o assunto é amor. A cena que precede o momento em que esta entra em coma é de uma beleza extraordinária. A fotografia de Javier Aguirresarobe (Os Outros, A Estrada) é magnífica nos tons com os quais trabalha e, mais especificamente, na forma como retrata alguns dos momentos mais fortes do filme (como a sequência de abertura e o acidente de Lydia). Há ainda uma lindíssima sequência que começa com Caetano Veloso cantando “Cucurrucucú Paloma”e termina com um diálogo irretocável – tudo conduzido de forma quase etérea pela câmera clínica e poética. Mais do que qualquer outro trabalho de Almodóvar, a fotografia e a trilha sonora (de seu colaborador habitual, o excepcional Alberto Iglesias) exercem um papel importantíssimo para a narrativa. São a partir destes dois elementos que a natureza poética do longa metragem realmente aflora, levando à pura e simples catarse emocional quando se une à equação os personagens fortes e seus diálogos  impactantes.

Este é, também, um dos filmes mais sutis de Almodóvar. Cineasta que trabalha muito com a sexualidade em suas obras – em larga escala e abrangência – Fale com Ela marca uma abordagem particularmente mais simples (e, portanto, terna). Seja para a homossexualidade reprimida de Benigno ou mesmo para a aventura sexual ousada que sela seu destino (que é revelada para a audiência por meio de um curta-metragem simbólico que apenas enaltece o tom metalinguístico de Almodóvar) há todo um sutil retrato de emoções, facetas e sentimentos em ebulição por meio de meras tomadas, diálogos intensos ou expressões marcantes – o elenco, neste aspecto, é infalível. Destaque óbvio para os dois protagonistas masculinos – principalmente Cámara, perfeito – e para as pequenas e impressivas aparições de Flores.

Fale com Ela é, portanto, um dos mais significativos trabalhos de Almodóvar, um longa-metragem que é arte pura em todos os seus poros. O verdadeiro desafio é sair intocado da sessão, visto a força pungente que o drama ecoa com seus temas tão humanos. Quando finaliza-se, em rima temática perfeita com sua abertura, o que nos é introduzido é tão belo quanto intrigante e ficamos com a nítida sensação de que estes personagens não só são incrivelmente reais, povoando muito além do que o mero plano cinematográfico, como são reflexos, versões e projeções de nós mesmos em nossos estados mais vulneráveis. Mais do que uma ode à mulher, portanto, Fale com Ela é sobre a vulnerabilidade humana – poeticamente escancarada pelas ocasionais banalidades que nos prendem em nossos corpos.

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Hable con ella (2002)
Direção: 
Pedro Almodóvar
Roteiro: 
Pedro Almodóvar
Elenco: 
Javier Cámara, Darío Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Mariola Fuentes, Geraldine Chaplin, Elena Anaya, Lola Dueñas, Roberto Álvarez
(Drama, 112 minutos)