Os Incompreendidos
dez
13
Posted by Wally
Oh, I lie now and then, I suppose. Sometimes I'd tell them the truth and they still wouldn't believe me, so I prefer to lie.
Um marco da Nova Onda, primeiro
longa-metragem de François Truffaut e capítulo um das aventuras de Antoine
Doinel – são vários os motivos pelos quais Os
Incompreendidos é hoje considerado um clássico. Nenhum porém tão apropriado
quanto o fator subjetivo – o eco da etérea viagem por imagem e música
contemplando a infância que é Les Quatre
Cents Coups. Tão indescritível experiência de se contemplar quanto é de
racionalizar, a obra de Truffaut é um misto de sensações reconhecidas e situações
inusitadas. Tudo expressamente capturado por uma belíssima fotografia em preto
e branco e movimentado pela trilha sonora onipresente de Jean Constantin.
De 1959, o filme retrata a
primeira fase da vida de Antoine Doinel – ainda existem quatro outras em obras
que se seguiram. Interpretado de forma única por Jean-Pierre Léaud (que
permaneceria nas sequências), Doinel é um garoto típico. É rebelde, arteiro,
odeia estudar e busca o reconhecimento dos pais à mesma medida que reluta com
as inconsistências deles. Infelizmente, porém, parece estar sempre sob o olho
do furacão e, portanto, apesar de não ser muito diferente de seus colegas de
classe, acaba sempre levando a culpa por tudo. Neste caos, Doinel decide fugir
de casa, despertando uma série de acontecimentos que servirão para moldá-lo
irreversívelmente. É o destino final, porém, que deixará a maior impressão.
Filmado com um olhar especial
para planos e escrito despretensiosamente, o filme de Truffaut é tão charmoso
quanto denso. Inocentemente engraçado em um segundo para, em seguida, nos
hipnotizar em alguma viagem visual/sonora ou mesmo nocautear com planos e
olhares épicos em significância. À primeira vista a jornada de Doinel pode
parecer ordinária ou mesmo simplória. Um olhar mais sensível e apropriadamente
subjetivo extrairá as nuances existentes na obra. Da lírica passagem pela
cidade dentro de um camburão da polícia à fuga final filmada em plano-sequência
extraordinário.
Há todo um tom caprichoso
cercando a obra e a maneira com que a narrativa se desenrola. O relacionamento
de Doinel com seus pais e com a escola é genuíno – a repreensão, a reclusão e o
posterior desprendimento. A fuga rotineira nas ruas da cidade e nas salas de
cinema e as escolhas erradas quando se vê forçado a renegar os pais e viver
independentemente. Os diálogos são sempre absurdamente sinceros e realistas, a
edição bem pontuada e as atuações, incrívelmente naturais. Assim, Os Incompreendidos desperta diversas
temáticas e cria um painel estrondoso no que concerne seu alcance emocional.
É parte auto-biografia do próprio
Truffaut, parte homenagem à André Bazin e parte exposição da adolescência
problemática (e incompreendida) da França na época. No fundo, porém, é muito
mais do que isso. É mais do que Truffaut, Doinel e dos garotos que – na
tradução do título original – querem ver o circo pegar fogo. É a angústia de
gerações, o olhar momentâneo da perdição infinita. É a vida resumida em um
único espaço temporal e sensorial, exposta pelo olhar inocente de um garoto tão
ingênuo que, no final das contas, foi traído pelas ambições. Todos já fomos
Antoine Doinel. E ainda contemplamos a infinitude com o mesmo peso e pesar.
Ainda somos os incompreendidos.
Les quatre cents coups (1959) | Direção: François Truffaut; Roteiro: François Truffaut, Marcel Moussy; Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy, Guy Decomble, Georges Flamant
6 comentários:
Conheço tão pouco do François Truffaut.....
Não lembro muito desse filme, preciso revê-lo...
Parabéns pelo blog! Adorei! Você domina muito bem o assunto!
Se puder dar uma olhada no meu (http://this-is-cult-fiction.blogspot.com/) ficaria muito agradecido! Comecei ele estes dias!
Ah, adicionei o seu na minha lista de blogs!
Abraços!
Bacana o seu blog.
Cumprimentos cinéfilos!
O Falcão Maltês
"O prazer dos olhos", não é mesmo?
Maravillosa película de Francois Truffaut.
Postar um comentário